Demorou até que alguém naquele lugar se dignasse a atender; em consonância com meu estado de espírito, eu já tratava de cobrir de palavrões aquela indolência eclesiástica e no exato momento em que disse ‘merda!’ alguém atendeu. Uma voz espantosamente rouca disse:
- Pois não?
Fiquei decepcionado. Contava com uma voz suave de freira, com aroma de café fraco e bolo seco, e em vez disso apareceu um homem grasnando, exalando um cheiro tão forte de repolho e fumo de rolo, que comecei a tossir.
- Queira desculpar – disse-lhe, poucos instantes depois. – Eu poderia falar com o estudante de teologia Leo Schnier?
- Com quem estou falando?
- Schnier.
Era claro que aquilo ia além de seus horizontes. Ele ficou longo tempo em silêncio, eu voltei a tossir, controlei-me e disse:
- Vou soletrar: Sopa, Cenoura, Hotel, Neve, Ida, Emílio, Ricardo.
- O que? – disse ele, finalmente.
E percebi haver em sua voz tanto embaraço quanto o que eu sentia. Talvez tivessem colocado um velho professor para atender o telefone (...)
- Os estudantes estão comendo, e durante a refeição não se pode interromper.
- É urgente.
- Caso de morte? – perguntou.
- Não, mas quase.
- Acidente grave, então?
- Não. Um acidente interior.
- Ah! – exclamou, e sua voz ficou mais tranqüila – Hemorragia interna.
- Não. Problemas na alma. Só na alma.
Aos ouvidos dele isso soou como uma palavra estrangeira, e então seguiu-se um silencio ferrenho.
- Meu Deus – continuei - , o homem, afinal, é feito de corpo e alma.
Um comentário:
Muito bonito! E uma verdade essencial pra vivermos nossos dias...
Postar um comentário