segunda-feira, 21 de julho de 2008

Alma.

Demorou até que alguém naquele lugar se dignasse a atender; em consonância com meu estado de espírito, eu já tratava de cobrir de palavrões aquela indolência eclesiástica e no exato momento em que disse ‘merda!’ alguém atendeu. Uma voz espantosamente rouca disse:

- Pois não?

Fiquei decepcionado. Contava com uma voz suave de freira, com aroma de café fraco e bolo seco, e em vez disso apareceu um homem grasnando, exalando um cheiro tão forte de repolho e fumo de rolo, que comecei a tossir.

- Queira desculpar – disse-lhe, poucos instantes depois. – Eu poderia falar com o estudante de teologia Leo Schnier?

- Com quem estou falando?

- Schnier.

Era claro que aquilo ia além de seus horizontes. Ele ficou longo tempo em silêncio, eu voltei a tossir, controlei-me e disse:

- Vou soletrar: Sopa, Cenoura, Hotel, Neve, Ida, Emílio, Ricardo.

- O que? – disse ele, finalmente.

E percebi haver em sua voz tanto embaraço quanto o que eu sentia. Talvez tivessem colocado um velho professor para atender o telefone (...)

- Os estudantes estão comendo, e durante a refeição não se pode interromper.

- É urgente.

- Caso de morte? – perguntou.

- Não, mas quase.

- Acidente grave, então?

- Não. Um acidente interior.

- Ah! – exclamou, e sua voz ficou mais tranqüila – Hemorragia interna.

- Não. Problemas na alma. Só na alma.

Aos ouvidos dele isso soou como uma palavra estrangeira, e então seguiu-se um silencio ferrenho.

- Meu Deus – continuei - , o homem, afinal, é feito de corpo e alma.

Um comentário:

Anna Oh! disse...

Muito bonito! E uma verdade essencial pra vivermos nossos dias...